Uma noite mal dormida, um enjoo que não passa, uma dor que atrapalha até as tarefas mais simples. Durante o tratamento do câncer de mama, esses desconfortos podem ocupar boa parte do dia e merecem espaço na conversa com a equipe de saúde.
Neste Outubro Rosa, queremos falar também com quem já recebeu o diagnóstico e com as pessoas que estão ao seu lado. Vamos abordar sobre como tornar esse período menos difícil, o que fazer quando os sintomas persistem e como conversar sobre as possibilidades de cuidado.
Os produtos à base de canabinoides costumam aparecer entre essas dúvidas. Para entender onde eles podem entrar, precisamos olhar para o que as pesquisas encontraram e para o que ainda não conseguiram responder.
COMO VOCÊ ESTÁ PASSANDO OS DIAS?
Essa pergunta simples pode abrir uma conversa importante na consulta. Antes de ir, vale refletir sobre alguns pontos:
- Alimentação: você tem conseguido comer?
- Sono: a dor interrompe seu descanso?
- Medicamentos: o enjoo dificulta tomá-los?
- Rotina: está mais difícil tomar banho, sair de casa ou conversar com as pessoas?
Compartilhar essas situações ajuda a equipe a entender como você está e o que precisa ser revisto. Essas informações também fazem parte do tratamento.
Esse é o propósito dos chamados cuidados de suporte: prevenir e aliviar os desconfortos da doença e das terapias, considerando também as necessidades emocionais e práticas de cada pessoa.
Se surgir um sintoma novo ou houver piora, procure a equipe conforme as orientações recebidas. Vale combinar previamente como entrar em contato entre as consultas.
ANTES DOS ESTUDOS: O QUE CONSIDERAR SOBRE OS CANABINOIDES NO CÂNCER DE MAMA
O canabidiol, conhecido como CBD, e o Tetrahidrocanabinol, conhecido como THC, estão entre os compostos da cannabis mais estudados. Mas eles têm características diferentes, e os resultados de uma pesquisa com determinada formulação não se aplicam a todos os produtos.
Além disso, muitos estudos incluem pessoas com diferentes tipos de câncer e de terapia. Por isso, seus resultados nem sempre podem ser estendidos diretamente às mulheres com câncer de mama.
QUANDO OS ENJOOS CONTINUAM APESAR DOS MEDICAMENTOS
Uma pesquisa publicada em 2024, publicado no Jornal of Clinical Oncology, avaliou uma formulação oral com THC e CBD em adultos que ainda tinham náuseas ou vômitos durante a quimioterapia, mesmo usando os medicamentos recomendados para prevenir esses sintomas. (1)
Neste estudo 24% das pessoas que receberam o produto de cannabis tiveram remissão dos sintomas de náusea e vómito.
E quanto à dor e ao sono?
Um estudo publicado em 2023, publicado no Exploration of Medicine, acompanhou 25 pessoas com diferentes tipos de câncer durante duas semanas. Os participantes usaram produtos de cannabis escolhidos por eles próprios, e os pesquisadores observaram melhora em medidas de dor e na qualidade do sono. (2)
Para interpretar esses resultados, vale considerar que:
- o estudo foi pequeno, e não controlado;
- por isso, ainda não é possível afirmar que os produtos causaram as melhoras nem indicar que seria adequado para outra paciente.
Esses dados reforçam a importância de avaliar os benefícios e os possíveis efeitos indesejados em conjunto.
COMO CONVERSAR SOBRE ISSO COM A EQUIPE DE SAÚDE
Você não precisa chegar à consulta sabendo se os canabinoides seriam indicados. Pode simplesmente dizer: “Li sobre esse assunto e gostaria de entender se faz sentido para mim.”
Algumas informações ajudam nessa conversa:
- O que mais incomoda: quando o sintoma aparece, quanto tempo dura e o que fica difícil fazer por causa dele.
- O que você já utiliza: medicamentos, suplementos, fitoterápicos e qualquer produto à base de canabinoides.
- O que gostaria de melhorar: conseguir comer, dormir com menos interrupções ou sentir menos dor, por exemplo.
Também vale perguntar:
- Existe alguma possibilidade de benefício para o meu caso?
- Há risco de interferir nos medicamentos do meu tratamento?
- Que efeitos indesejados devo observar?
- Como vamos saber se está ajudando e quando devemos reavaliar?
Se alguém acompanha você no dia a dia, essa pessoa pode ajudar a organizar as informações. Mas o que você sente, deseja e considera importante deve estar no centro da conversa.
VOCÊ PODE PEDIR AJUDA PARA O QUE ESTÁ DIFÍCIL
Durante o tratamento, é comum concentrar toda a atenção nos exames e nas próximas etapas. Ainda assim, o sono, a alimentação, a dor e o bem-estar merecem ser discutidos.
No HM Support, pacientes e cuidadores encontram um espaço para esclarecer dúvidas e receber orientação, em alinhamento com o profissional responsável pelo tratamento.
Neste Outubro Rosa, queremos reforçar este convite: conte à equipe como você está vivendo esse período. Mesmo um desconforto que parece pequeno merece atenção quando interfere no seu dia.
Este conteúdo é informativo e educativo. Produtos à base de canabinoides não substituem o tratamento do câncer. Qualquer possibilidade de uso deve ser discutida com a equipe de oncologia e avaliada individualmente.
Referências:
1. GRIMISON, Peter et al. Oral cannabis extract for secondary prevention of chemotherapy-induced nausea and vomiting: final results of a randomized, placebo-controlled, phase II/III trial. Journal of Clinical Oncology, v. 42, n. 34, p. 4040–4050, 2024. DOI: 10.1200/JCO.23.01836. Disponível em: https://ascopubs.org/doi/10.1200/JCO.23.01836. Acesso em: outubro de 2026.
2. GIORDANO, Gregory et al. Cannabis use in cancer patients: acute and sustained associations with pain, cognition, and quality of life. Exploration of Medicine, v. 4, p. 254–271, 2023. DOI: 10.37349/emed.2023.00138. Disponível em: https://www.explorationpub.com/Journals/em/Article/1001138. Acesso em: outubro de 2026.