Health Meds

A dor oncológica não é apenas um sintoma isolado. Ela pode surgir do próprio tumor (por compressão, inflamação ou infiltração de nervos e ossos), dos tratamentos (cirurgia, quimioterapia, radioterapia) e também de condições associadas, como imobilidade prolongada, infecções ou feridas. Por isso, as principais diretrizes internacionais encaram a dor do câncer como um fenômeno multifatorial, que exige avaliação contínua, readequação das condutas e combinação de estratégias farmacológicas, intervencionistas, de reabilitação e apoio psicossocial.¹

Por que a dor do câncer é tão difícil de controlar? 

Do ponto de vista clínico, a dor oncológica costuma resultar de uma mistura de diferentes componentes: 

Dor nociceptiva: mais “inflamatória” ou “mecânica”, comum em metástases ósseas e em quadros de compressão de estruturas.¹⁻³

Dor neuropática: ocorre quando há lesão ou irritação de nervos, sendo descrita pelo paciente como queimação, choques, formigamento ou hipersensibilidade ao toque. ¹⁻³

Dor com componente central/nociplástico: relacionada à sensibilização do sistema nervoso central, em que o organismo “aprende” a sentir dor de forma mais intensa. Nesse contexto, sono ruim, ansiedade, estresse e fadiga acabam amplificando a experiência dolorosa. ¹⁻³

Essa combinação ajuda a entender por que, muitas vezes, um único medicamento não é suficiente e por que alguns pacientes continuam sentindo dor significativa mesmo com opioides adequadamente ajustados. As diretrizes atuais reforçam que o manejo deve ser individualizado e multimodal, envolvendo diferentes tipos de medicamentos, procedimentos e suporte multiprofissional. ¹⁻³

 

Tratamento padrão: avanços importantes, mas com limitações 

Os pilares clássicos do controle da dor oncológica incluem: 

Analgésicos não opioides, como paracetamol e anti-inflamatórios, quando apropriados.¹ , ⁴ , ⁵

Opioides, em diferentes níveis de potência e apresentações, com titulação cuidadosa da dose e, se necessário, rotação entre moléculas.¹ , ⁴ , ⁵

Medicações adjuvantes, como antidepressivos e anticonvulsivantes para dor neuropática, corticoides em cenários específicos e outros fármacos que ajudam a modular a percepção de dor. ¹ , ⁴ , ⁵

Tratamentos oncológicos que reduzam a fonte da dor, como radioterapia em metástases ósseas ou cirurgias descompressivas.¹ , ⁴ , ⁵

Estratégias intervencionistas, como bloqueios de nervos, neurólise, bombas de infusão e técnicas regionais, associadas a intervenções não farmacológicas, incluindo fisioterapia, terapia ocupacional, suporte psicológico, técnicas de relaxamento e cuidados paliativos integrados.¹ , ⁴ , ⁵

 

Onde os limites aparecem na prática 

  1. Efeitos adversos e tolerabilidade
    Os opioides ocupam um lugar central no tratamento da dor oncológica moderada a intensa, mas não estão isentos de efeitos adversos: constipação, sonolência, náusea, confusão mental, risco de quedas e necessidade de ajustes frequentes de dose são situações comuns, sobretudo em pacientes mais frágeis. Enquanto os anti-inflamatórios podem ser limitados pelo risco de problemas renais, gástricos, intestinais e cardiovasculares.¹ , ⁴ ⁻ ⁶
  2. Dor neuropática e dor mista
    Uma parcela importante dos pacientes apresenta dor com componente neuropático. Nesses casos, a resposta aos opioides costuma ser apenas parcial, exigindo uso de medicações adjuvantes e, muitas vezes, outras estratégias complementares para alcançar alívio satisfatório. ¹ , ⁴ ⁻ ⁶
  3. Limite de resposta em parte dos pacientes
    Mesmo seguindo as melhores práticas, revisões sistemáticas mostram que existe um grupo de pessoas com câncer cuja dor permanece insuficientemente controlada. É justamente nesse cenário que cresce o interesse por abordagens complementares com perfil de risco-benefício aceitável, entre elas o uso de canabinoides como adjuvantes.¹ , ⁴ ⁻ ⁶

 

Canabinoides na dor oncológica: possibilidades, realidade e papel adjuvante 

Quando falamos em tratamento com canabinoides, é importante diferenciar: 

Uso da planta in natura, que não é foco do cuidado baseado em evidências, além de envolver questões legais e de padronização de dose e composição.⁷⁻¹⁰

Produtos padronizados à base de canabinoides, especialmente formulações com combinações de THC (tetraidrocanabinol) e CBD (canabidiol). A base biológica para o uso desses produtos envolve o sistema endocanabinoide, um conjunto de receptores e mediadores presentes em diversas áreas do organismo e que participa da modulação da dor, do sono, do apetite e da resposta ao estresse. No entanto, em medicina, não basta que a hipótese biológica faça sentido: é fundamental avaliar o conjunto de evidências clínicas disponível, considerando benefícios, magnitude do efeito, segurança e para quais perfis de pacientes a intervenção é mais apropriada. ⁷⁻¹⁰

O que os estudos mostram sobre o uso adjuvante de canabinoides na dor oncológica 

Em pacientes cuja dor oncológica permanece relevante mesmo com opioides e medicações adjuvantes bem manejados, os canabinoides vêm sendo avaliados como opção complementar, e não substitutiva. Alguns ensaios clínicos com formulações padronizadas contendo THC e CBD sugerem que, em alguns pacientes com dor relacionada ao câncer não plenamente controlada por opioides, o uso como adjuvante pode aumentar a chance de uma redução clinicamente relevante da dor.¹ , ³ ⁻ ⁵ , ⁷

Em estudos multicêntricos, combinações de THC:CBD mostraram resultados superiores ao placebo em escalas de dor e maior proporção de pacientes com redução importante na intensidade dolorosa. Outros ensaios exploraram diferentes faixas de dose em pacientes com dor refratária, reforçando que, quando há benefício, ele tende a aparecer com titulação cuidadosa, atenção à tolerabilidade e definição clara de metas terapêuticas (por exemplo, melhorar a dor a um nível que permita dormir melhor, realizar atividades básicas e interagir com família e cuidadores de forma mais confortável). ¹ , ³ ⁻ ⁵ , ⁷

 

Como é o acesso legal a produtos à base canabinoides no Brasil? 

No Brasil, o uso medicinal de produtos à base de canabinoides é regulado principalmente pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Hoje, existem dois eixos principais de acesso: 

Produtos de Cannabis para fins medicinais com autorização sanitária
A RDC nº 327/2019 estabelece as regras para fabricação, importação, comercialização, prescrição, dispensação e monitoramento de produtos de Cannabis para uso medicinal em farmácias e drogarias. Esses produtos seguem requisitos de qualidade, rotulagem e controle, e só podem ser utilizados mediante prescrição de profissional de saúde legalmente habilitado.¹¹

Importação excepcional por pessoa física
A RDC nº 660/2022 define os critérios para que pacientes ou responsáveis legais possam solicitar à Anvisa a autorização de importação excepcional, para uso próprio, de produtos à base de Cannabis não disponíveis no país, desde que haja prescrição médica.¹²

 

Em que momentos os produtos à base de canabinoides podem ser considerados? 

De forma geral, os produtos à base de canabinoides não são a primeira escolha no manejo da dor oncológica. Eles podem ser considerados em situações como: 

. Dor persistente, moderada a intensa, mesmo após otimização do tratamento tradicional (opioides, adjuvantes, medidas intervencionistas e suporte não farmacológico).¹ , ³ ⁻ ⁵

. Pacientes em que os opioides estão associados a efeitos adversos significativos, tornando difícil o aumento de dose, e nos quais se busca uma alternativa adjuvante para tentar alcançar maior conforto.¹ , ⁵ , ⁶

. Casos em que, além da dor, há sintomas associados relevantes, como insônia relacionada à dor, perda importante de apetite ou ansiedade, sempre avaliando se o canabinoide é realmente a melhor opção entre tantas estratégias possíveis.⁷ , ⁸ 

 

Nesses contextos, a indicação deve ser feita de forma individualizada, por equipe habilitada (idealmente envolvendo oncologia, medicina da dor e cuidados paliativos), com: 

. escolha adequada do produto e da proporção de canabinoides,¹ , ³ ⁻ ⁵

. início em doses baixas, com titulação gradual,¹ , ³ ⁻ ⁵

. acompanhamento regular de eficácia (quanto a dor realmente melhorou, na prática do dia a dia) e de segurança,¹ , ³ ⁻ ⁵

. revisão periódica da necessidade de manter, ajustar ou suspender o tratamento.¹ , ³ ⁻ ⁵

 

Considerações finais 

A dor oncológica é um desafio complexo, que vai muito além da intensidade do sintoma e impacta sono, mobilidade, humor, relações familiares e qualidade de vida. Os tratamentos tradicionais continuam sendo a base do manejo, mas uma parcela dos pacientes permanece com dor relevante, mesmo com a melhor combinação disponível de medicamentos e intervenções. ¹ , ³ ⁻ ⁵

Nesse cenário, os canabinoides surgem como opção adjuvante para alguns pacientes com dor refratária, desde que utilizados com critérios de eleição, dentro da legislação vigente, e sempre em diálogo próximo entre equipe de saúde, paciente e cuidadores. O objetivo não é oferecer uma “cura milagrosa”, mas ampliar o leque de recursos para que cada pessoa possa viver esse momento com o máximo de conforto, dignidade e autonomia possíveis.¹⁻¹²

 

Referências 
  1. Swarm, R. A., Youngwerth et al. (2025). Adult Cancer Pain, Version 2.2025, NCCN Clinical Practice Guidelines In Oncology.Journal of the National Comprehensive Cancer Network, 23(7), Article e250032, e250032. Disponível em: https://doi.org/10.6004/jnccn.2025.0032. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  2. NIJS, J.; LEYSEN, L.; ADRIAENSSENS, N.; et al. Pain following cancer treatment: guidelines for the clinical classification of predominant neuropathic, nociceptive and central sensitization pain. Acta Oncologica, v. 55, n. 6, p. 659–663, 2016. DOI: 10.3109/0284186X.2016.1167958. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  3. GANEM, V. R. A.; AVELAR, M. L. S.; NEVES, V. C.; SILVA, L. N. A. Manejo da dor crônica em pacientes oncológicos: princípios fundamentais e abordagens clínicas. Journal of Medical and Biosciences Research, v. 2, n. 2, p. 320–341, 2025. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  4. FALLON, M. et al. Management of cancer pain in adult patients: ESMO Clinical Practice Guidelines. Annals of Oncology, v. 29, supl. 4, p. iv166–iv191, 2018. DOI: 10.1093/annonc/mdy152. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  5. DAUD, M. L.; DE SIMONE, G. G. Management of pain in cancer patients – an update. ecancermedicalscience, v. 18, art. 1821, 2024. DOI: 10.3332/ecancer.2024.1821. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  6. ZIMMERMAN, A.; LAITMAN, A. Safe management of adverse effects associated with prescription opioids in the palliative care population: a narrative review. Journal of Clinical Medicine, v. 13, n. 10, p. 2746, 2024. DOI: 10.3390/jcm13102746. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  7. ZOU, S.; KUMAR, U. Cannabinoid receptors and the endocannabinoid system: signaling and function in the central nervous system. International Journal of Molecular Sciences, Basel, v. 19, n. 3, art. 833, 2018. DOI: 10.3390/ijms19030833. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  8. D’ANGELO, M.; STEARDO, L. Jr. Cannabinoids and sleep: exploring biological mechanisms and therapeutic potentials. International Journal of Molecular Sciences, Basel, v. 25, n. 7, art. 3603, 2024. DOI: 10.3390/ijms25073603. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  9. VUČKOVIĆ, S. et al. Cannabinoids and pain: new insights from old molecules. Frontiers in Pharmacology, Lausanne, v. 9, art. 1259, 2018. DOI: 10.3389/fphar.2018.01259. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  10. INTERNATIONAL ASSOCIATION FOR THE STUDY OF PAIN (IASP). IASP position statement on the use of cannabinoids to treat pain. Washington, DC, 2021. Disponível em: https://www.iasp-pain.org/publications/iasp-news/iasp-position-statement-on-the-use-of-cannabinoids-to-treat-pain/. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  11. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 327, de 9 de dezembro de 2019. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/anvisa/2019/rdc0327_09_12_2019.pdf. Acesso em: 12 jan. 2026.  
  12. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada – RDC nº 660, de 30 de março de 2022. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-rdc-n-660-de-30-de-marco-de-2022-389908959. Acesso em: 12 jan. 2026. 

Uma resposta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *